No dia 3 de maio de 2016, uma crítica de página inteira publicada no suplemento cultural do jornal O Globo – o mais importante veículo de comunicação do Brasil em mídia impressa – discorreu elogiosamente sobre a edição do quinto álbum de João Fênix, De volta ao começo. Em texto filosófico, o conceituado jornalista Leonardo Lichote defendeu que o disco, editado pela gravadora Biscoito Fino, propunha um retorno às origens que extrapolava a rota individual do artista pernambucano nascido no Recife (PE), propondo uma volta ao começo de um Brasil mais profundo, revolvido pela memória afetiva e musical do artista.

Vinte anos antes, em 1996, o mesmo jornal O Globo abriu generoso espaço para destacar a atuação de Fênix – nascido João Oliveira – em reportagem assinada pelo jornalista Mauro Ferreira sobre o musical de teatro Os quatro carreirinhas, então encenado na cidade do Rio de Janeiro (RJ) sob direção de Wolf Maya, um dos mais importantes diretores dos palcos e dos estúdios de TV. As duas abordagens jornalísticas no conceituado matutino carioca, separadas por duas décadas, exemplificam a coerência e o rumo certo tomado por João Fênix em trajetória ascendente, cíclica, que já contabiliza, a rigor, 23 anos, pois o artista está em atividade profissional desde 1993.

A rara voz de timbre andrógino – evocada e celebrada no álbum De volta ao começo na regravação de A feminina voz do cantor (Milton Nascimento e Fernando Brant, 2002) – é o fio condutor da meada de João Fênix nestas duas décadas. Uma voz de contralto que alcança tons masculinos e femininos e que foi esculpida, como diamante verdadeiro, em aulas de canto lírico tomadas pelo artista no Conservatório Pernambucano de Música, no início da jornada artística. Uma voz virtuosa, mas que não se escora somente na técnica, mas que também provoca emoção com o canto. Como destacou o jornalista Leonardo Lichote ao analisar o álbum De volta ao começo, a regravação de Cálice (Chico Buarque e Gilberto Gil, 1973) tem poder arrepiante por beber do amargo noticiário nacional. Explica-se: na faixa, Fênix inseriu vozes de estudantes que ocupavam escola de São Paulo e a voz afirmativa do deputado baiano Jean Willys – “Sou homossexual, sim!” – entre os versos embriagantes do (na época do lançamento da música, em 1973) censurado tema de Chico Buarque e Gil.

Respeitado pela crítica e pelo público antenado que teve atenção despertada para a rara voz do cantor, João Fênix é um artista com livre trânsito na música brasileira. Tem discos produzidos por Jaime Alem e JR Tostoi – este um guitarrista de toque contemporâneo; aquele, um maestro, violonista e violeiro que bebe das melhores tradições musicais do Brasil. Já teve o privilégio de gravar com cantores de primeiro time como Ney Matogrosso, de cuja nobre linhagem vocal Fênix é orgulhoso descendente. Com Ney, Fênix dividiu os estúdios de igual para igual ao gravar com o colega música, Fim do mundo (Patrícia Mello), do primeiro álbum, Eu, causa e efeito (Nikita Music, 2001), marco zero da discografia solo que atingiu o ápice do reconhecimento com o recente De volta ao começo



Joao Fênix é aquele tipo de artista da música que nos arrebata à primeira audição. E que nos hipnotiza à primeira visão. E não digo isso só por mim. Lembro-me de que na primeira vez em que ouvi João Fênix, eu estava acompanhado de outras quinze pessoas na casa de uma amiga. Esta punha o CD do cantor e compositor pernambucano até então desconhecido para nos mostrar sua música. Assim que começamos a ouvir a interpretação de “Avohai”, ficamos mudos, maravilhados. Não só com a afinação e a capacidade de alcançar notas agudas (algo raro entre cantores), mas sobretudo com a força da interpretação e a criatividade do arranjo. Sentimos que estávamos diante não de algo original (porque o original é uma ilusão; nada é absolutamente original; tudo parte ou se desdobra de algo que lhe antecede), mas de algo novo, naquele sentido em que o novo é um rasura, um desvio, uma invenção à partir do que está aí.

Sim, João Fênix soou novo aos nossos ouvidos. E pareceu novo também quando o vi no palco, partindo do legado de Ney Matogrosso, mas recriando esse legado ao seu modo. Androginia, teatralidade e postura rocker que ora dialogam, ora contrastavam com sua voz. Pensei: Eis aí mais um artista de gênero masculino a contrariar o lugar-comum de que o Brasil é um país de cantoras! E não bastasse o enorme talento de intérprete, capaz de transformar “No Rancho Fundo”, de Ary Barroso, num eletrotango, sem que isso pareça um sacrilégio (ao contrário!), João Fênix é ainda um compositor maduro, com melodias inventivas e letras que flertam com a filosofia.

Ele é um artista no melhor - e quase perdido - sentido desta palavra. Tenho enorme prazer de escutá-lo, de vê-lo e de ser seu amigo.



…É um absurdo que um estranho de marré mexa comigo dessa forma; eu mal sei de onde é, não imagino o que você pretende e nem mesmo sei se vais ficar; só sei que teu brilho é mágico, árido e me fascina; é franco e forte, me confunde.

Luz de lua, água de orvalho, céu de inverno/odor de selva. Barra de prata/arco de ouro, mármore negro e de repente areia fina, esparsa relva e desvairada com essência de jasmins, doce sopro de mistério, suavidade, fragilidade que é só força, uma meiguice de criança clemente de compreensão pra solidão do adulto consciente, uma dor imensa que a resignação a Deus foi convertendo em paz e amor à arte foi transformando em luta; e a felicidade de ser possuído por um anjo e num só fio de paixão cantar, falar de vida, o espírito solto voa sobre todos os segredos, esmaga todas as mágoas e ultraja nossos medos mais covardes e num sorrir, semeia uma coragem quase louca abrigando a qualquer um que esteja perto a fazer parte da altiva arte, uma arte corajosa, madura, forte, doce, porém agressiva, meiga, mas decidida.

Coisa esquisita, meu Deus! Você acorrenta as pessoas a si com esse olhar desprotegido que traduz em desespero um pedido de amor. Eu não sei, se você tem esse direito, mas já que o pai da música te deu esse poder, extrapola, abusa dele, continua seduzindo as pessoas, com a força com a qual você me seduziu e arranca delas tudo o que elas não têm coragem de enxergar, tudo o que elas têm medo de sofrer, toda vontade que elas têm de amar.

Vai estranho! Já que é essa a parte que te cabe neste latifúndio: segue, segue!